sábado, 19 de março de 2011

Rememórias.

Restou-lhe passar a noite sozinho.

Depois de andar pela casa, sentar-se no sofá, andar de novo pela casa, entrar em todos os quartos, sentar-se novamente no sofá, pegou o violão para que a noite adiantasse o passo. No chão. Sozinho. A noite não adiantou.

Arrisco-me a dizer que estaria angustiado, mas só arrisco-me. Ele nunca se demonstrou claramente. Estando triste, demonstrava alegria, estando alegre, cobria-se de amargura. Mas, agora, estava sozinho. Já não era necessário o jogo de disfarces, por mais habituado que estivesse a usá-lo.

Era jovem, conservava uma aparência até agradável, sua estética fazia jus à idade que tinha, mas não era tão simpático quanto parecia. Nem tão sincero. Falava bem, pouco, conquistava muitos. Escolhia meticulosamente as palavras, assim, estaria livre de qualquer compromisso futuro. Astuto, ria esporadicamente. Ingenuidade não mais lhe definia.

Mesmo com uma mente muito bem articulada para a sua idade, tinha o espírito de ansiedade natural dos jovens. Em algum ponto da história, chegou a acreditar em eternidade, no fato das coisas se construírem paulatinamente e durarem para sempre, mas sofrera, tudo lhe escapara às mãos. Não gostara de sentir, endurecera, agora passava o tempo arquitetando projetos sem fim, ocupando-se de muita coisas (que talvez nem tenham um futuro), não teria tempo para sentir falta de nada, pensava. Já não descansava e nem percebera quantos machucara durante o caminho.

Ficar sozinho estaria sendo uma experiência inédita. Sempre foi muito cercado de pessoas, certamente, agora se sentia estranho. Embora sempre soubesse que passar um tempo sozinho, afastado, era algo comum a qualquer pessoa, e até necessário, não estava ali porque queria. Nunca gostou de não chamar a atenção. Sempre fez muita questão de sentirem falta da sua presença. Algo nato, quase uma vocação. Mas permaneceu só, mesmo contrário à sua vontade, e a princípio, arrisco-me novamente a dizer, que até se saíu muito bem. Sabia convencer qualquer um que tal situação lhe favorecera e que estava dentro de seus planos.

Mas sentia-se vazio. O violão não lhe fazia mais companhia. E enquanto a madrugada se aproximava, não conseguia entender porquê ainda estava ali. Desanimado, voltou a andar pela casa. Sentou no sofá. Chorou.
Agora sentia-se abandonado. Arrependeu-se.

Seus disfarces não devolveriam o que perdera. Seu amor, aquele em que ele não acreditou e que o endureceu, sua família, o que amava fazer... Nada voltaria a ser como antes. Não adiantaria dormir. Fechou os olhos por um segundo, tocou sua música preferida, lembrou-se do último beijo, sorriu. Abriu os olhos.

Nada  haveria de mudar.
Como quem sente saudade, encostou o violão, apagou a luz, balbuciou qualquer coisa, de leve.
Então carpe noctem, ma chère. Carpe noctem, clic!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Não espere nada

É difícil imaginar o fim das coisas. Perder o controle delas é pior ainda. É deprimente, angustiante.

Bom mesmo é estar livre de qualquer obrigação, é não impôr nada.

É por isso que te digo: não espere muito de mim. Não espere beijos apaixonados, juras de amor eterno, poesias, um outdoor com a nossa foto, no meio da cidade, declarações numa praça enquanto você toma sorvete e a calda de kiwi suja a sua saia colorida.
Não espere versos de amor, nem serenatas na sua janela. Caixa de chocolates, nem anéis de brilhantes. Não espere rosas, nem músicas que relembrem nossa história, não espere que eu te responda quando você me pedir. 

Tudo isso pode ser lindo, e é, mas conviva com a ideia de que, talvez, nos tornemos desconhecidos um dia, quem sabe? Te aprisionar seria fatal, você é tão mais linda livre...

Hoje eu tô dizendo pra mim que te amo, que tô convicto disso, que seu abraço é tão confortante quanto uma colcha de retalhos (àquelas que qualquer vó faz pra seus netos), que preciso de você aqui, que passo horas imaginando como seria bom acordar com você do meu lado, que sinto falta do seu cheiro quando você não está por perto, que me faz bem segurar sua mão quando faz frio, que você é a mulher mais incrível que já conheci. Hoje eu tô me dizendo tudo isso, só não espere muito de mim, não te prometo nada, não sei ser previsível.

Mas fazer tudo isso é te interromper, te brecar, te privar de seguir comigo, te estacionar na beira da estrada, eu prefiro te eternizar. Sem muitas exigências. Assim. Simplesmente.

Não espere nada de mim, só me espere.
A gente não precisa se entregar nesse frenesi louco das coisas tortas, amor não é esse tipo de entrega que a gente se acostumou a ver, obssessiva, destrambelhada. O amor é um fruto bem maduro, com doçura exata: nem muito doce, nem muito amargo. É encontro, equilíbrio.
Eu optei por te amar assim.




quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

E depois de um tempo, ela abriu a janela e saltou. Um pouco confusa, ou talvez nem isso. Já não tinha as preocupações de antes. Planos não estavam mais em seus planos. Nem exigências de compreensão da parte de um desconhecido. O mundo ainda girava devagar, a garoa, às vezes lhe doía, mas andar descalça já não lhe fazia mais mal. Ela sorriu. Enfim, tudo é como é. Inteiros ou frações.

Atravessou a rua, refez o laço do vestido, soltou os cabelos e seguiu.

Com uma mecha enrolada na ponta do indicador, próxima à boca, ela cantava.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

" Vale a pena esperar, contra toda a esperança,
o cumprimento da Promessa que Deus fez a nossos
pais no deserto. Até lá, o sol com chuva, o arco-íris,
o esforço de amor, o maná em pequeninas rodelas,
tornam boa a vida.
A vida rui? A vida rola mas não cai. A vida é boa."

Adélia Prado

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Prodigal






Living on my own, thinking for myself
Castles in the sand, temporary wealth
Walls are falling down, storms are closing in
Tears have filled my eyes, here I am again

And I’ve held out as long as I can
Now I’m letting go and holding out my hand

Daddy, here I am again
Will You take me back tonight ?
I went and made the world my friend
And it left me high and dry
I drag Your name back through the mud
That You first found me in
Not worthy to be called Your son
Is this to be my end
Daddy, here I am
Here I am again

Curse this morning sun
Drags me in to one more day
Of reaping what I’ve sown
Of living with my shame
Welcome to my world
And the life that I have made
Where one day you’re a prince
The next day you’re a slave
 
"Existem pessoas como a cana, mesmo postas na moenda, reduzidas a bagaço, só sabem dar doçura..."


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Comparações

Machado de Assis disse:

" Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, a força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

A Bíblia diz:

" Ajuntando-se entretanto muitos milhares de pessoas, de sorte que se atropelavam uns aos outros, começou a dizer aos seus discípulos: Acautelai-vos primeiramente do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. 
Mas nada há encoberto que não haja de ser descoberto; nem oculto, que não haja de ser sabido.
Porquanto tudo o que em trevas dissestes, à luz será ouvido; e o que falastes ao ouvido no gabinete, sobre os telhados será apregoado.
E digo-vos, amigos meus: Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que fazer.
Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei." (Lucas 12: 1-5)


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Aos fraquinhos que nem eu...




Assim veio a mim a palavra do Senhor
dizendo: Antes que eu te formasse no ventre, eu te 
conheci; e, antes que saísses da madre, te santifiquei
e às nações te dei por profeta. Então, disse eu:
 Ah! Senhor Jeová! Eis que não sei falar; porque sou uma 
criança. Mas o  Senhor me disse: Não digas: Eu sou uma criança;
porque, aonde quer que eu te enviar, irás; e tudo quanto te mandar dirás. 
Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar,
diz o Senhor.

Jeremias 1:4

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Com o tempo

Ana Jácomo

" Tenho aprendido com o tempo que a felicidade vibra na frequência das coisas mais simples. Que o que amacia a vida, acende o riso, convida a alma pra brincar, são essas imensas coisas pequeninas bordadas com fios de luz no tecido áspero do cotidiano. Como o toque bom do sol quando pousa na pele. A solidão que é encontro. O café da manhã com pão quentinho e sonho compartilhado. A lua quando o olhar é grande. A doçura contente de um cafuné sem pressa. O trabalho que nos erotiza. Os instantes em que repousamos os olhos em olhos amados. O poema que parece que fomos nós que escrevemos. A força da areia molhada sob os pés descalços. O sono relaxado que põe tudo pra dormir. A presença da intimidade legítima. A música que nos faz subir de oitava. A delicadeza desenhada de improviso. O banho bom que reinventa o corpo. O cheiro de terra. O cheiro de chuva. O cheiro do tempero do feijão da infância. O cheiro de quem se gosta. O acorde daquela risada que acorda tudo na gente. Essas coisas. Outras coisas. Todas, simples assim.

Tenho aprendido com o tempo que a mediocridade é um pântano habitado por medos famintos, ávidos por devorar o brilho dos olhos e a singularidade da alma (...). Que pode haver algum conforto no acordo tácito da hipocrisia, mas ele não faz a vida cantar. Que se não tivermos um olhar atento e generoso para os nossos sentimentos, podemos passar uma jornada inteira sem entrar em contato com o que realmente nos importa. Que aquilo que, de fato, nos importa, pode não importar a mais ninguém e isso não tem importância alguma. Que enquanto não nos conhecermos pelo menos um pouquinho, rabiscaremos cadernos e cadernos sem escrever coisa alguma que tenha significado para nós.
Tenho aprendido com o tempo que quando julgamos falamos mais de nós do que do outro. Que a maledicência acontece quando o coração está com mau hálito. Que o respeito é virtude das almas elegantes. Que a empatia nasce do contato íntimo com as nuances da nossa própria humanidade. Que entre o que o outro diz e o que ouvimos existem pontes ou abismos, construídos ou cavados pela história que é dele e pela história que é nossa. Que o egoísmo fala quando o medo abafa a voz do amor. Que a carência se revela quando a autoestima está machucada. Que a culpa é um veneno corrosivo que geralmente as pessoas não gostam de ingerir sozinhas. Que a sala de aula é a experiência particular e intransferível de cada um.
Tenho aprendido com o tempo coisas que somente com o tempo a gente começa a aprender. Que o encontro amoroso, para ser saudável, não deve implicar subtração: deve ser soma. Que há que se ter metas claras, mas também a sabedoria de não se transformar a vida numa sala de espera. Que a espontaneidade e a admiração são os adubos naturais que fazem as relações florescerem. Que olhar para o nosso medo, conversar com ele, enchê-lo de cuidado amoroso quando ele nos incomoda mais, levá-lo para passear e pegar sol, é um caminho bacana para evitar que ele nos contraia a alma.
Tenho aprendido que se olharmos mais nos olhos uns dos outros do que temos feito, talvez possamos nos compreender melhor, sem precisar de muitas palavras. Que uma coisa vale para todo mundo: apesar do que os gestos às vezes possam aparentar dizer, cada pessoa, com mais ou menos embaraço, carrega consigo um profundo anseio de amor. E, possivelmente, andará em círculo, cruzará desertos, experimentará fomes, elegerá algozes, posará de vítima para várias fotos, pulará de uma ilusão a outra, brincará de esconde-esconde com a vida, até descobrir onde o tempo todo ele está."

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

"Ela é uma moça de poses delicadas, sorrisos discretos e olhar misterioso.
Ela tem cara de menina mimada, um quê de esquisitice, uma sensibilidade de flor, um jeito encantado de ser, um toque de intuição e um tom de doçura.
Ela reflete lilás, um brilho de estrela, uma inquietude, uma solidão de artista e um ar sensato de cientista. Ela é intensa e tem mania de sentir por completo, de amar por completo e de ser por completo.
Dentro dela tem um coração bobo, que é sempre capaz de amar e de acreditar outra vez. Ela tem aquele gosto doce de menina romântica e aquele gosto ácido de mulher moderna."

Caio Fernando Abreu