quinta-feira, 26 de maio de 2011

Conselhos aos poetas que se dizem filhos de Camões

A você. Que senta e diz que é poeta.
Que senta e se aventura numa luta com rimas que não fazem nenhum sentido. Que cria neologismos para se dizer modernista ou parecer a segunda versão de Caetano. Que fala de um amor tão piegas quanto o que está estampado nas letras do Restart, do Justin Bieber, e de tantos outros clichês musicais.
A você, que não tem mistério, que diz apenas por dizer e que abusa das reticências. Que não tem entrelinha nenhuma e que é óbvio descaradamente. Que olha pra árvore e decide escrever sobre ela, que abre o dicionário e usa a palavra mais incomum que encontrar no seu texto. Você, leia-me, leia-me bem: você não é poeta. E não se ache o gênio do lirismo só porque passou a vida toda em volta de frases e trechos de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu porque não, você, definitivamente, não é.
Poesia não é expôr sua vida de forma escancarada nuns versinhos com rimas prontas de uma  maneira que todos TE reconheçam ali. Poesia é mais que isso. Não é um atirar de palavras bem arranjadas que se faz pra conquistar alguém, nem um punhado mal arranjado de letras que machucam. Você quer ser poeta? Então não atire palavras ao léu, pousando de intelectual, apenas sinta-as. Também não use a poesia como resposta ou indireta a ninguém, ela não tem culpa de suas desventuras, sobretudo, as ortográficas. Você quer ser poeta? Faça com que os outros SE reconheçam no que você escreve, mas não transforme a sua poesia num diário, nem a encha de mesmices, apenas não escreva pra você. Escreva para quem tem alegrias como as suas, tristezas como as suas, que sofre como você sofre, que ama como você ama. Escreva para quem você nunca viu, pra quem te ignora; escreva, até, para quem não escreve. Escreva para e não sobre. Poeta que é poeta, sangra; o que é absolutamente inaceitável é que, para se obter o sangue, você precise forjar a ferida. Isso não é ser poeta. É ser burro.

4 comentários:

BelaTeixeira disse...

Arrasou.
O último paragrado é daqueles que eu daria um ctrl+c ctrl+v e colocaria um [2] no final.
Vc cumpriu a função. Escreveu pra que outrso se vissem nas suas palavras. Eu me vi.

Beijo, moça.

Danielle disse...

*-* perfeito ! sem mais.

=*

Larissa Castro disse...

Polêmico esse texto... Não sei se concordo, se discordo. Se eu tivesse que escrever sobre mesmo tema, provavelmente só sairiam um monte de dúvidas. Julgar as palavras alheias é tarefa tão difícil. Mas bom, falando de você, acho que cumpriu o papel de escritora, que é o de expor e provocar alguma coisa. Por isso é um bom texto.

Aníssima Duarte* disse...

Permita-me a citação:

"Todas as palavras tomadas literalmente são falsas. A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas. A atenção flutua: toca as palavras sem ser por elas enfeitiçada. Cuidado com a sedução da clareza! Cuidado com o engano do óbvio! )."
(Rubem Alves